Carta Celeste

Não busqueis a lei em vossas escrituras, porque a Lei é a Vida, enquanto o escrito está morto... (Evangelho Essênio da Paz) - Jesus, o Nazareno

Artigo de Cor:  Amarelo, Azul e Vermelho Amarelo, Azul e Vermelho
Tópico: Espiritualidade de várias fontes - Subtópico: Meditação

Fixação em um mundo de ocultismo, assombrado por deuses e demônios

Publicado em 26/03/2016 14:25 e Atualizado em: 05/04/2016 14:12

Compartilho aqui um texto retirado do livro “Aquietando a Mente” de Alan Wallace, em que o autor faz um alerta sobre uma das “armadilhas” que estão no caminho de meditantes avançados da meditação "shamatha", que basicamente são práticas da atenção plena “projetadas para refinar a atenção e equilibrar a mente".

 

Neste livro, Alan Wallace comenta ensinamentos de Düdjom Lingpa, profundo e consagrado meditador do século XIX, que como outros tantos mestres tibetanos, somente de uns 20 anos para cá começou a ser conhecido no ocidente.

 

Mentalizações e visualizações como imaginar-se envolvido por um globo azul, por exemplo, como é feito na Eubiose, são exemplos de shamatha, e são técnicas tradicionais do budismo vajrayana, o budismo tibetano.

 

Dedicando-se a shamatha, a atenção do praticante vai se tornando cada vez mais leve e natural, até chegar a um estado de pura atenção, sem esforço nem perturbações, chamado de Samadhi.

 

Na verdade, apesar de avançada aos olhos do ocidente, shamatha é uma prática considerada preliminar no Tibet, e que não tem condições, por si só, de levar à iluminação, e à liberação da ilusão.

 

Trata-se apenas de um refinamento da mente necessário para avançar para práticas mais investigativas – como o vipashyana e a prajnaparamita –, ou outras diretamente liberadoras, como o mahamudra e o dzogchen. Estas últimas só muito recentemente – anos 90 para cá – passaram a ser minimamente conhecidas no ocidente.

 

Importante notar também que deuses e demônios para os budistas são frutos de diferentes estados de ilusão, e estão dentro da roda de samsara. Por este entendimento, os estados mentais alimentados durante a vida humana poderão inclusve gerar renascimentos no chamado “reino dos deuses”, onde se vive em grande bem-aventurança, e que se eventualmente vistos, ou até mesmo “visitados” por meditadores profundos de shamatha, poderão ser facilmente confundidos com algum "glorioso" destino post-mortem do ser humano.

 

Mas infelizmente, como se trata de uma bem-aventurança construída e não produzida naturalmente pela verdadeira liberação, e que tem fortes doses de orgulho e apego, quando as causas cármicas desaparecerem, os seres do reino dos deuses despencam direto no reino dos infernos, seguindo o movimento samsárico natural.

 

Em resumo, o texto traz um alerta incisivo e esclarecedor, produzido com fundamento em uma cultura de meditadores que remonta a vários milênios, formada por um sem número de experiências de centenas de milhares de pessoas que dedicaram suas vidas a práticas que nós, no ocidente, estamos apenas em nossos primeiros contatos.

 

Por isso, acredito que este texto – e o livro inteiro, na verdade – é de grande interesse dos leitores do Carta Celeste, estudiosos de Eubiose, Teosofia e espiritualismo em geral.

 

O texto de Düdjum Lingpa:

 

“Particularmente, a experiência de clareza pode resultar em visões de deuses e demônios, e você pode pensar que está sendo subitamente atacado por demônios. Às vezes, isso pode até ser verdade; mas, ao pensar que é clarividente e repetidamente fixar-se a deuses e demônios, no final, você se sentirá como se tivesse sido tomado por eles. Então, por mentalmente evocar deuses e demônios e espalhar que você é clarividente, no final, a sua meditação será toda sobre demônios e a sua mente será possuída por eles. Então, seus votos e compromissos sagrados se deteriorarão, você se afastará muito do Darma, se perderá nas atividades mundanas desta vida e se confundirá com rituais mágicos. Ao buscar alimento e riqueza sem nem mesmo um traço de contentamento, a sua mente será capturada pela fixação, pelo apego e pelo desejo intenso. Se morrer nessa situação, você renascerá como um demônio malévolo. Tendo acumulado as causas para experimentar o ambiente e o sofrimento de um fantasma faminto que vagueia pelo céu, sua visão e meditação se desviarão, e você permanecerá deludido para sempre no samsara.” (Düdjum Lingpa – Ensinamentos sobre Shamatha. Essência Vajra)

 

Comentário de Alan Wallace:

 

“Como é que essa “experiência de clareza” – luminosidade – “pode resultar em visões de deuses e demônios”? Os nossos olhos são projetados para detectar uma faixa muito estreita do espectro total de radiações eletromagnéticas. Deste, vemos as cores do espectro visível, mas não podemos ver infravermelho nem ultravioleta. De maneira geral, shamatha é projetada para ampliar a nossa faixa de percepção mental. Por um lado, quando atinge shamatha, você pode acessar experiencialmente dimensões de existência que estavam anteriormente escondidas da visão. Você acessou a sua consciência substrato, que é transparente, e, agora, você tem acesso ao reino da forma, onde pode encontrar alguns de seus habitantes. Esse tipo de acesso pode permitir que você veja diferentes tipos de seres sencientes, deuses e assim por diante. Como a sua mente não está mais trancada no estado puramente humano e nos fenômenos do reino do desejo, você pode se tornar um visionário.

 

Enquanto a sua base de operações for os cinco sentidos físicos e a mente comum, você estará preso a uma psique humana, limitando a sua percepção às coisas a que estamos todos acostumados. Se você for um tibetano, poderá ver um fantasma de vez em quando. Ao acessar shamatha, você acessa algo que é não humano. A consciência substrato não é um estado humano de consciência nem pertence a alguma outra classe de seres sencientes dentro do samsara. Ela abrange todos eles. Todos os estados mentais das diferentes classes de seres sencientes emergem da consciência substrato. Isso significa que potencialmente, se você acessar essa base comum – essa “consciência tronco” –, é concebível que possa ver seres sencientes dos seis reinos da existência. Poderá até acessar memórias de você mesmo em diferentes encarnações. Portanto, as portas da percepção estarão abertas e você pode começar a ver algumas criaturas que pessoas comuns, com as suas faixas limitadas de percepção mental, não podem ver.

 

Portanto, “a experiência de clareza pode resultar em visões de deuses e demônios, e você pode pensar que está sendo subitamente atacado por demônios. Às vezes, isso pode até ser verdade”. Assim como vírus, bactérias e radiações existem mesmo que a maioria das pessoas não possa vê-los, existem outras entidades que não são normalmente visíveis para pessoas que não desenvolveram altos graus de samadhi e algumas delas podem ser malévolas. Então, é hora de aprender a vestir alguma armadura. É por isso que, nas práticas do estágio da geração e nas práticas Vajrayana, em geral, há as “rodas de proteção”, dispositivos protetores, mantras e assim por diante. De fato, seções inteiras deste texto destinam-se a ajudá-lo a desenvolver o seu próprio campo de defesa contra forças malévolas.

 

Os demônios que incomodam podem ser entidades alienígenas ou até mesmo seres humanos. Quando Gen Lamrimpa estava em retiro solitário nos Himalayas, um lenhador, sem nenhuma razão aparente, passou a odiá-lo e a atacá-lo verbalmente, ainda que Gen Lamrimpa não estivesse fazendo nada além de meditar em silêncio em sua cabana. Estranhamente, pouco antes de morrer, o lenhador se confessou a Gen Lamprimpa, pediu pelo seu perdão e faleceu. O que os reuniu nessa estranha relação foi o carma. Portanto, seja um demônio real como na visão asiática tradicional ou apenas uma pessoa difícil atacando-o ou difamando-o sem razão aparente, você com certeza se perguntará: “o que significa tudo isso?” Bem, isso é apenas parte do caminho, acontece. Seja um mau jeito nas costas ou uma dor no estômago – ou uma pessoa que estava cortando lenha vindo atacá-lo –, isso é carma.

 

“Ao pensar que é clarividente e fixar-se a deuses e demônios repetidas vezes, no final, você se sentirá como se tivesse sido tomado por eles”. Mesmo quando estiver próximo da realização de shamatha, coisas dese tipo ainda poderão acontecer. Lembre-se do aforismo de William James: “Neste momento, aquilo em que prestamos atenção é a realidade.” Quando começar a ver aparições – sejam elas provenientes de alguma fonte externa ou puramente de seu substrato –, se começar a se fixar a elas, a apreendê-las, obcecado por elas, dessa forma, você as alimenta e acaba invadido por elas. Então, um conselho bastante familiar nos é oferecido: “Não se torne obcecado. Não se fixe. Não apreenda.”

 

Quando você se aproxima do substrato, a sua imaginação se torna extremamente poderosa. Se quiser visualizar algo, pode visualizar tão bem quanto se estivesse vendo. Os seus sonhos se tornam muito vívidos. Portanto, as imagens que surgem, deuses e demônios e assim por diante, podem ser completas, tridimensionais, invenções “Tecnicolor com som Dolby” de seu próprio substrato. Ser “imaginárias” significa que elas não podem prejudicá-lo? Afinal, são apenas alucinações. Acredite em mim, se você se fixar a elas, podem, de fato, causar danos. Observe a terrível angústia sofrida por um esquizofrênico. Ao atingir esses níveis de samadhi, com a sua imaginação se tornando muito potente, você deve tratá-la com grande inteligência. Se não o fizer, se você evocar esses deuses e demônios e espalhar que você é clarividente, no final, a sua meditação será toda sobre demônios e a sua mente será possuída por eles”.

 

“Então, seus votos e compromissos sagrados se deteriorarão, você se afastará muito do Darma, se perderá nas atividades mundanas desta vida e se confundirá com rituais mágicos.” Como vimos em uma descrição anterior de uma situação semelhante, uma vez que esteja possuído por demônios, você se sentirá compelido a encontrar algum feiticeiro ou mágico a quem possa perguntar: “Como saio disso?” Você receberá mantras para recitar, poções para beber e cerimônias para realizar. Dessa maneira, você desliza para o reino do oculto. Algumas pessoas passam um longo tempo, às vezes toda uma vida, nessa situação. Isso tem bem pouco, se é que alguma, relação com a iluminação, mas por ser algo paranormal, muitas pessoas sentem-se seduzidas. Ao agirem assim, confundem-se com rituais mágicos. Não façamos isso – temos coisas melhores a fazer.

 

“Ao buscar alimento e riqueza”, porque, a esta altura, você pode se considerar uma espécie de feiticeiro ou xamã, “sem nem mesmo um traço de contentamento, a sua mente será capturada pela fixação, pelo apego e pelo desejo intenso. Se morrer nessa situação, você renascerá como um demônio malévolo”. Afinal, a esta altura, é só com isso que você realmente se preocupa, é a isso que está fixado. “Tendo acumulado as causas para experimentar o ambiente e o sofrimento de um fantasma faminto que vagueia pelo céu, sua visão e meditação se desviarão, e você permanecerá deludido.” Eu diria que esta é uma advertência bem forte – “Tenha cuidado! Perigo de morte!” Ao invés de embarcar em uma viagem para shamatha e para a iluminação, você está se reunindo aos piratas – ao oculto e à magia. Definitivamente, isso pode acontecer, especialmente quando você começa a desenvolver o samadhi. Com isso, pode acessar todo um reino de experiências paranormais, a vidência, o oculto e assim por diante. Pode ser uma enorme armadilha, levando-o a absolutamente lugar nenhum. Portanto, vamos deixar isso de lado e continuar praticando como antes, mantendo a essência do nosso refúgio – bodicita.”

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Comentários

Nome: Marcelo

Comentado em: 02/04/2016 4:35

Belo texto!

 

Nome: Catarina

Comentado em: 02/04/2016 11:43

Texto muito esclarecedor. Obrigada por compartilhar. As vezes precisamos mesmo parar de vibrar em coisas que não nos servem ou nos atrapalham, impedem nossa evolução. E nesse texto aprendi que a maior parte das vezes a culpa é nossa.

 

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