Carta Celeste

Trago um novo estado de consciência para o mundo. Não mais admito que se diga “Tive uma idéia” porque no futuro a Idéia será permanente no homem. - Henrique José de Souza

Artigo de Cor:  Amarelo e Azul Amarelo e Azul
Tópico: Poesiando - Subtópico: Vida a mais

O MITO DECISIVO

Publicado em 06/01/2013 16:45 e Atualizado em: 06/01/2013 16:55

Quem olha para fora sonha.
Quem olha para dentro desperta

(C. Jung)

 

 

Os dias do seguir sozinho nunca desaparecerão talvez
Onde somos o vento a ir... só ir
O tempo a rir de nós
por tê-lo inventado, pobre de nós
e depois devorados
partir...
seguir sem estrela nem vereda
nem verdade ou alameda
seguir sem ir
só sumir
virar ar...

 

 

 

Quando Karl Jaspers, revelando a impossibilidade de constituir o mundo em unidade, exclama: “Esta limitação me conduz a mim mesmo, onde não me escondo por atrás de um ponto de vista objetivo que eu só represento, onde nem eu mesmo, nem a existência do outro, podem mais se tornar objeto para mim”, ele está evocando, após muitos outros, aqueles lugares desertos e sem água onde o pensamento chega aos seus limites. Após muitos outros, sim, sem dúvida, mas todos com grande pressa para fugir dali! Muitos homens, entre os quais os mais humildes, chegaram a esta última curva em que o pensamento vacila. Abdicaram então do que tinham de mais valioso, que era a sua vida. Outros, príncipes do espírito, também abdicaram, mas foi com o suicídio do seu pensamento, na sua revolta mais pura. O verdadeiro esforço, pelo contrário, é se sustentar ali na medida do possível e examinar de perto a vegetação barroca de suas regiões afastadas. A tenacidade e a clarividência são espectadores privilegiados desse jogo desumano em que o absurdo, a esperança e a morte trocam suas réplicas. O espírito pode então analisar as figuras desta dança ao mesmo tempo elementar e sutil, antes de ilustrá-las e revivê-las ele mesmo. (Albert Camus – O Mito de sisivo)

 

 

Sem fugir mais de si mesmo através de um mundo de “objetividades”... inventadas, o humano descobre, ao fim de tanto buscar o que tem neste seu existir de tão assim humano, quase que necessariamente o deserto... ou a savana... ou o sertão.

 

Não existe nada mais espiritual para o homem que o deserto – mais do que a floresta – porque nele é que nos formamos, no início de nossas coisas.

 

No meio da savana recém-formada pelo Grande Vale Rift que nos expulsou da verdejante floresta de outrora e nos separou de nossos parentes mais próximos para sempre, é que tivemos de construir juntos nosso mundo de coisas.

 

Então, não... não existe nada mais espiritual para ser humano que o outro ser humano.

 

O que me ensinaram os Mestres:

 

A montanha ensinou o silêncio

A floresta, a prosperidade

O rio, a força do vazio

As estrelas, o sentido

A lua, a loucura necessária para a lucidez

O mar, para onde se vai, depois de em tudo chegar

O deserto, a verdade

e você me ensinou

quem sou eu.

 

 

O outro eu que dança em minha frente, e que para mim sempre foi vital nessa savana em que eu me fazia humano, era quem lapidava meu cérebro e mãos, me adocicava a alma, me acariciava a pele até dela retirar quase todos os meus pelos, e até amaciar meu corpo antes duro e rígido, agora macio e confortável para que você possa deitar em mim e me amar.

 

E assim, o deserto savaanico encontrou sua primeira fronteira, que fizemos juntos, o amor.

 

A primeira invenção humana foi exatamente esta vontade enorme e maravilhosa de estar junto, bem junto, de outro que nem eu. A primeira invenção e a primeira coerência que permitiu-nos sobreviver na carga pesada da savana ensolarada demais, seca demais, com comida de menos, retirantes todos nós do paraíso perdido daquele perdido para sempre mundo dos macacos.

 

E neste ninho quente que preparávamos todos os dias e noites uns para os outros com nossos próprios corpos descobrimos a falta que cada um de nós que morria fazia para todos nós. Descobrimos também que a vida só era possível de mãos dadas e olhares uns nos outros, vimos que somente poderíamos comer se estivéssemos juntos, e que nossas crianças precisavam muito de todos nós juntos; e devagar, descobrimos que assim inventávamos sem querer uma estranha dança, feita de estranhos e novos sons construídos juntos, cada vez mais importantes, cada vez mais significativos: inventávamos a palavra.

 

E foi assim que dentro do deserto, agora já delimitado por nossa primeira fronteira, levantávamos as ruas e casas nas quais viveríamos para sempre. Um mundo de coisas pelas palavras roubadas sem resgate da unidade em fluxo de contínua transformação do universo. Quando nossas palavras nasceram, foram elas que roubaram várias das chamas do fogo infinito que vem da boca poderosa do universo; e foram elas que nos entregaram estes fogos agora cristalizados como coisas, ao mesmo tempo que justamente isto nos crucificava para sempre num mundo agora feito de objetos por nós mesmos inventados, e por ela seríamos devorados, mas ao mesmo tempo, eternizados.

 

Se sou eu mesmo uma coisa, e depois que vimos morrerem, descobri que coisas acabam, vi que não conseguia mais ver nada que não fosse coisa... no tempo.

 

Assim vi nascer o tempo, parido em meio às coisas recém-nascidas de minhas palavras. Ao redor desta fogueira dançamos para sempre e só dela retiramos toda a luz que temos para ver o que há ao redor.

 

Mas agora faço o caminho de volta.

 

Com muito esforço me levanto por um instante de nossa fogueira queimando palavras e dançando coisas. Sei que você não me entende, sente que lhe traio fazendo isso, e sente certo, traio você e a mim mesmo humano, e me levanto, me retiro de você, vou morrer um pouquinho, entende? O luto vai ser inevitável, mas não se assuste, quem sabe ressuscito, mesmo que leve um pouco mais do que três dias...

 

Afinal, porque viver? esta, a pergunta jamais respondida. E nem eu agora é que vou responder, porque agora vou saindo de nossas ruas e casas, nossos sentidos mapeantes e nossas respostas acolhedoras, vou trair novamente, mas agora, à toda gente... quero sair de nossa acolhedora e escravizante cidade-dos-objetos, quero silêncio, e para isso vou apagar a luz que obscurece minha descoberta de mim.

 

Sigo cego e mudo, sigo novamente às fronteiras de nós, sigo só eu ao silêncio... e vejo aos poucos passando por mim a fronteira primeira do amor que nos permitiu tudo entre nós.

 

Não tenho nenhuma dúvida que cometo o crime mais violento e o maior pecado, imperdoável e mortal. Saindo das fronteiras do humano sei que sou lançado, talvez para sempre, num exílio sem pátria, nem humano, nem qualquer outra forma de ser, nem nenhum animal, pedra, vegetal, vou para onde nada me espera, nenhuma outra espécie, nenhum outro jeito de ser.

 

E é assim que vejo que tudo o que achava que existia era tão só e somente eu mesmo, do meu jeito, que existindo, fazia existir. Era tudo eu. E quando traí meu mundo criado por mim e por todos nós, e ultrapassei aquela primeira fronteira – tão vital – que havíamos construído, entrei no grande e grave silêncio que a tudo aniquila, vi o deserto transformar tudo em areia... soprada pelo vento, o hálito sem centro dissolvendo qualquer coisa, dispersando eu.

 

Quando eu morrer vou pro céu

Vou virar nuvem

Flutuando no firmamento azul

que sempre me firmou

Vou virar quem toda hora é outro

E ninguém acha estranho

nem contraditório

até gosta

porque assim imagina sempre coisa diferente na gente

e relaxa leve assim

flutua

parece que vira um pouco do céu

 

Quando eu morrer vou pro céu

E viro tudo

E desviro eu

Só céu... brancas nuvens

vão brancas nuvens... vão...

vão... até amanhã vão

até amanhã.

 

Descobri que ali fora não existia nada, tudo fragmentado em areia, tocado por um vento interminável de soprar e castigar, fustigado por um sol verdadeiro demais para ser suportado sem secar até virar novamente pó.

 

E sem querer, vi a vida nascida dum simples equilíbrio casual de vento e pó.

 

E atrás desse sol existirão mesmo aquelas montanhas? Aquela outra vida, atrás das montanhas fronteiras daquela floresta, paraíso? Lá, aquela placenta verde, quente e fresca, a nos abraçar com seus galhos, nos guardar com suas folhas, nos dar de comer com suas frutas? Aquela terra tão verdadeira, que nos permite sermos nus, sem futuro nem passado, Mãe aconchegante e lar que me não deixa, senão de vez em quando, em grande descoberta, olhar mais longe?

 

Não sei. De lá e daqui, apenas as montanhas e o fundo vale do “não passarás”.

 

Imprimir Enviar por E-mail


Deixe seu Comentário


174693


Comentários

Nome: Marci

Comentado em: 03/08/2013 22:28

muito significante seu modo de ver a vida.

 

Seja livre: use Linux! E não deixe de instalar o navegador FIREFOX, um excelente meio de se ter uma nova experiência em suas "viagens web"!!!

Este site é melhor visualizado com resolução: 1024 x 768px ou superior e para perfeita exibição visual em: 1280 x 1024px. Experimente um atalho: ctrl++ para dar um zoom no site todo ou um ctrl +- para o inverso.