Carta Celeste

A luz de Deus encontra-se no silêncio, além de todos os nomes. -

Artigo de Cor:  Vermelho Vermelho
Tópico: Sala de Estar - Subtópico: Conversando com você

As águas de Maquiné

Publicado em 11/09/2011 15:21 e Atualizado em: 11/09/2011 15:41

Esses dias fui à maravilhosa caverna do Maquiné, em Cordisburgo, terra do profundo João, o mineiro Guimarães Rosa.

 

Lá a água há milhares de anos dá forma ao que depois, muito e muito tempo depois, daria vida: uma ovelha, um imenso mamute, um morcego preso ao teto, uma coruja sábia nos espreitando, algo como um felino sobre um monte de pedras, e além de tudo, perfeita, a mão humana e a cidade de pedra que construiria.

 

Não se tratam de meros gatilhos à nossa imaginação. Lá estão de fato formas e mais formas feitas pela água. Formas que milhões de anos depois seriam, elas mesmas, “aproveitadas” para a vida. Não é imaginação a imensa mão espalmada sobre a rocha, produzida lentamente, gota a gota, pela corrente de água.

 

Sim, como também não é imaginação a linda semelhança do brilho de certas rochas com os véus das noivas do ocidente, ou os imensos salões parece que formando, ponto a ponto, o que seriam as catedrais góticas e seus altares, esculturas e tubos de órgãos.

 

Não é imaginação nem coincidência, segundo penso, que o que Hegel chamava de espírito da natureza e Schopenhauer dava o nome de Vontade, produza suas imagens muito tempo antes de que elas lhes sejam úteis a guardarem em sua natureza, vivo, este mesmo o espírito e esta mesma vontade. E eles, no momento em que se descobrem como alguém que vive e anda, usem aquela mesma mão projetada nas paredes de Maquiné para projetarem as matizes da mente que os definem humano, em catedrais, monumentos e no brilho de suas noivas nos altares e todos, já em embrião, se formassem em Maquiné, assim como em tantos outros celeiros subterrâneos da Terra – e nestas catedrais, altares e casamentos vejamos todos nós o sagrado.

 

Como não é por acaso, conforme sinto, que nosso guia – severo guardião daquele reino subterrâneo – nos disse, ao final, que se sentarmos em silêncio no escuro profundo de Maquiné, vamos ter a nítida impressão de levitar: “quem não está preparado, logo sobe um choro”.

 

E rápida vem a pergunta certa: o que mais estes úteros da Terra preparam?

 

Hoje talvez mais nada. A mente parece ter parado em Maquiné, pois milhões de anos depois a mão que lá se projetou conseguiu parar a água que lhe corria abundante há meros 30 anos atrás.

 

Hoje as piscinas e as fontes de Maquiné estão secas e suas minas não gotejam mais a criatividade da Terra.

 

E se a água retornar lá agora, água dentro das células que unidas dão forma a mãos e pés e corpos que agora vestem roupas e carregam câmeras, filmadoras e celulares, vamos ser água pisando sobre pó morto e não mais sobre a viva umidade das pedras que aqui e ali refletiriam para nós nossa própria imagem na profunda reflexão de espelhos de água e mente de poucos centímetros de espessura.

 

Espelhos de imagens, vida e reflexão tão finos e profundos quanto o azul de nossa atmosfera que inundamos com toneladas de energia fóssil, movimentando as máquinas que pararam Maquiné.

 

A mesma energia e calor que um dia a Terra providenciou manter bem oculta, bem guardada, nas mais profundas câmaras do seu sagrado reino subterrâneo.

 

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Comentários

Nome: Catarina Teles

Comentado em: 24/09/2015 12:52

Há muitos anos atrás visitei a Gruta de Maquiné com minha família e visitei as pessoas de Cordisburgo. Apesar de ser carioca conheci aquele local muito bem e o trago em minha memória até hoje. Lugar encantador e mágico mesmo. Nunca mais esqueço, menina que era, quando vi o rosto do jacaré "esculpido" pelas águas. Fascinante.

 

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