Carta Celeste

O verdadeiro discípulo é aquele que não procura ver os defeitos alheios, mas os seus próprios. - Henrique José de Souza

Artigo de Cor:  Azul e Vermelho Azul e Vermelho
Tópico: Sala de Estar - Subtópico: Conversando com você

ÉTICA DO DEUS RELATIVO

Publicado em 01/12/2010 9:42 e Atualizado em: 01/12/2010 10:11

De um livro de Duat, que interpreta salmos de Davi:

 

“Se Deus é, ao mesmo tempo, onisciente, onipotente e onipresente, logo, está com aquele que pensa desse modo, que raciocina, que vive, que pode fazer as coisas bem ou mal, se pende para Ele ou para o Espírito do Mal.”

 

Mas aí vem a pergunta óbvia: se Deus tem sua consciência em tudo, seu poder em tudo e sua presença em tudo, porque haveria então o mal?

 

Nietzsche agita esta questão, falando daqueles que, num futuro, ele poderia chamar de “espíritos-livres” (livres-pensadores?):

 

“No fundo de suas agitações e de seus transbordamentos – pois, pelo caminho, está inquieto e desorientado como num deserto – surge o ponto de interrogação de uma curiosidade cada vez mais perigosa.

 

Não se pode inverter todos os valores? E o bem é talvez o mal? E Deus nada mais que uma invenção e uma astúcia do diabo? Talvez, em última análise, tudo esteja errado? E se nós nos enganamos, não somos por isso mesmo também enganadores? Não temos de ser igualmente enganadores?”

 

E completa:

 

Esses são os pensamentos que o guiam e que o extraviam, sempre mais avante, sempre mais longe. A solidão o cerca e o envolve, sempre mais ameaçadora, mais estranguladora, mais pungente, essa terrível deusa e mater saeva cupidinum (mãe cruel das paixões) – mas quem sabe hoje o que é a solidão?...”

 

Sim, porque se Deus for o “sumo bem” como fomos sempre levados a acreditar, ele, em sua onipotência, não poderia fazer nada mais que o bem. O mundo não poderia ser nada menos que o sumo bem também. Caso contrário, ou Deus não é o sumo bem ou não é onipotente, e nesta última hipótese, teríamos uma contradição com o absoluto, pois Deus estaria a mercê de outras forças, seria tão relativo como qualquer um de nós.

 

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Certamente, não deveríamos nos contentar em chamar de Deus algo que ficasse à mercê de outras força. Pois o que seria então a soma deste “Deus” e tais forças? Esta soma resultaria em algo maior e mais poderoso que este Deus?

 

E este Deus resultante, poderia ele ser em si mesmo um “sumo bem”? Um absoluto bom?

 

Poderíamos, ainda assim dizer que sim: este Deus também seria um sumo bem, mas, em sua onipotência teria “decidido” construir um mundo onde imperasse a relatividade e a contingência, a fim de que ali houvesse uma “evolução”. Seguindo este pensamento, chegaríamos facilmente à conclusão clássica dos ensinamentos de JHS, que “sem polaridade não haveria evolução”. Polaridade aí no sentido de bem-mal, ou seja da contingência da escolha, do livre-arbítrio.

 

Mas como não nos contentamos com estas visões de superfície, continuamos a perguntar: Por que um Deus sumo bem teria que “evoluir”? Certamente se houvesse em algum ponto necessidade de alguma evolução é porque não haveria ali um sumo bem. Então um Deus que seja onipresente etc, e que portanto, evolui, exclui a noção absoluta de “sumo bem”.

 

Daí o pensamento de Nietzsche: e se “Deus nada mais (é do) que uma invenção e uma astúcia do diabo?”

 

Um Deus que não seja o sumo bem faz vir, dele mesmo, o mal.

 

Então, de Deus mesmo é que viriam nossas contingências, nossos pesares, nossos defeitos, nossos erros, nossas quedas enfim.

 

Nietzsche chega a tirar a responsabilidade de nossas costas:

 

“Ninguém é responsável por seus atos, ninguém o é por seu ser; julgar tem o mesmo valor que ser injusto.”

 

Nisto lembra muito a máxima cristã do “não julgueis para não serdes julgados.”

 

Só haveria mesmo sentido em não julgarmos caso não pudéssemos ser responsabilizados por nenhuma ação, porque toda ação seria mais fruto necessário da história, da moral, da civilização, seria ação do mundo, e não do indivíduo. Um ponto de vista em o indivíduo é o objeto do mundo e não o mundo objeto do indivíduo.

 

Mas no conselho do livro do Mundo de Duat há uma chave a mais.

 

O conselho é viver, pensar e raciocinar à maneira de Deus: onipresente, onipotente e onisciente. Ou seja, um exercício radical de projeção de consciência, de empatia. Fazer-se presente em todos, ciente a partir de dentro de todos, experimentando o agir de todos como se fosse próprio. Por fim, identificar esta experiência com a de Deus.

 

É uma experiência muito intensa, posso adiantar, para qual provavelmente poucos estão preparados, e menos ainda os que a suportam por muito tempo.

 

E o mais elucidativo, ao menos para mim até aqui, foi a questão do erro. Senti o quanto um Deus assim que está em todos os erros, que pode em todos, que está consciente em todos, o quanto um Deus assim sofre. Não exatamente porque Ele em si mesmo sofra ou não, mas sim porque qualquer um de nós que “pense como ele” e assim, se aproxime do que Duat chama de “bem”, sofreria intensamente esta extrema incoerência chamada mundo.

 

Mas se Deus sofre  – e acredito que sofra – não seria devido a algum tipo de “culpa”, por não fazer o que “seria o correto” frente a um padrão qualquer, mas sim porque no erro que um comete, o outro ou o todo recebe o impacto: o todo sofre, ou o outro sofre, e neste todo ou nesse outro, Deus também está ali e também sofre. Por isso é tão intensa a experiência de testar este tipo de pensar.

 

Deus erra no erro de cada um de nós, por isso evolui. Se houver evolução, não haveria possibilidade de um Deus que ao mesmo tempo seja onipresente, onisciente etc e também perfeito, um sumo bem. Deus somente é o sumo bem num plano onde não haja evolução, ou seja: acima do tempo, porque ali todas as evoluções já são no “agora”.

 

Por isso, também, as obscuridades de Deus turvam nossa visão, tal como pensamentos são turvados pela obscuridade de seu pensador. Sem Deus não seríamos, mas por causa dele temos nosso sofrimento e nossas tragédias também. Provavelmente nossas vitórias serão as dele mais do que o inverso. E nisso Nietzsche não estava tão errado em propor uma inversão de bem e mal...

 

Se estamos todos ligados uns aos outros e fundamentados num Deus imperfeito e relativo, que em última instância É todos nós, o melhor que temos a fazer é aperfeiçoar este Deus, para que possamos viver menos condicionados às suas imperfeições e desta forma, mais felizes. Pensar da forma que é sugerida pelo livro de Duat ajuda bastante: uma empatia que abarca a todos, erga omnes, para todos os lados, sentindo-se e pensando-se pela perspectiva deste Deus relativo e imperfeito, repita-se, mas ainda assim onipresente, onipotente e onisciente. Sofrer o erro e o acerto do outro, e que seja este outro universal, todos e qualquer um, visualizá-lo a partir de dentro, não como um outro, mas como a si mesmo, pode facilitar muito o acesso a esse subterrâneo divino e permitir a todos uma espécie de solidariedade espiritual, todos no “mesmo barco” de construir um Deus melhor.

 

Posto desta forma pode parecer que a realidade é um Deus fraco e inerte. Se assim fosse não haveria onipotência, o todo não teria consistência alguma, e nem os humanos poderiam ter qualquer fundamento para quererem-se numa vida social. Não haveria sociedade, provavelmente nem linguagem, pensamento ou amor. Todas conquistas de Deus, através de nós, mas às vezes, apesar de muitos de nós. Mas com certeza nos atravessando desde as entranhas sempre.

 

Por isso, o melhor que podemos fazer é passar a jogar conscientes este jogo. É saber melhor que tipo de Deus existe além das conjecturas ideológicas ou metafísicas, dos sonhos e projeções do homem, e sua perene e infantil necessidade de um eixo e de uma verdade perfeitas, que, em última instância, não existem ainda.

 

Há muito mais contingência naquilo que precisamos até agora – por nossa própria imaturidade – considerar o sumo absoluto. Mas talvez tenha chegado, junto com a pós-modernidade, o momento de encarar a verdade por trás do mito da verdade: assim relativa, sem eixos absolutos, em processo de constante construção e desconstrução, nascimento e luto dançando continuamente no fluxo do viver. Podemos dizer uma "obra" até, um labor, em constante incompletude.

 

Nas tradições teosóficas e nos escritos de JHS, o Deus que o universo nos entrega na Terra, é um incompleto, em formação. Estamos num plano iluminado por apenas quatro (ou no máximo cinco) fundamentos dos sete que potencialmente formam a completude. Assim, dos sete elementos ou ingredientes que formam um universo completo e pleno, só teríamos construído na Terra quatro ou cinco. Para JHS, cinco, para os teósofos, quatro.

 

Como JHS está mais atualizado, e diante das enormes mudanças que ocorreram após Blavatsky nos deixar, vejo mais razão em dizer que hoje temos cinco elementos em função na Terra, principalmente após o longo período em que os portais do Akasha (quinto elemento) ficaram abertos sobre a Terra, “derramando suas águas azuis” sobre todos nós, o que gerou esta sobrecarga de problemas e vitórias que temos desde a metade do século XX.

 

De qualquer forma, quatro ou cinco elementos não são sete, então estaremos por muito tempo ainda, milhões de anos talvez, presos à uma verdade relativa, incompleta, a um Deus imperfeito, em formação, à uma vida parcial, que demanda de nós mais inteligência e amor do que imaginávamos, mas que justamente é instigada pelos dois ou três princípios obscuros que nos faltam, e que, ao mesmo tempo, representam a perene surpresa (agradável ou não) do novo.

 

Evidente que se você não acredita em qualquer Deus, ou não pode aceitar a simples realidade concreta de um Deus imperfeito e relativo, ou mesmo considera que todas as tradições bastante antigas (milenares?) que desembocaram na teosofia ou na eubiose de JHS são algum tipo de ilusão, você pode retirar deste texto toda aparente fundamentação “espiritual” que vai dar tudo no mesmo. Pense! :)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Comentários

Nome: Fra

Comentado em: 01/12/2010 14:10

Esse texto, entre outras coisas, me lembrou de um trecho do livro das vidas passadas, onde o professor fala de um 6º sub-aspecto do 6º aspecto da linha krística (soh pra localizar, caso queira ler) e ele fala de uma encarnação como um lama mendigo que ao morrer falou uma coisa mto legal.." Expirou esse adepto, nos braços de um dos seus discípulos, mas, antes fazendo uma bela oração a respeito da maneira de se receber o sofrimento como o maior de todos os tesouros, por ser a chave da humana evolução."

 

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