Carta Celeste

Trago um novo estado de consciência para o mundo. Não mais admito que se diga “Tive uma idéia” porque no futuro a Idéia será permanente no homem. - Henrique José de Souza

Artigo de Cor:  Azul e Vermelho Azul e Vermelho
Tópico: Sala de Estar - Subtópico: Conversando com você

Três maneiras de fruir o amor

Publicado em 18/09/2010 13:27 e Atualizado em: 18/09/2010 14:29

Em primeiro ponto, e desde já agradecendo aos comentários que recebi neste sentido, esclareço que não estou aqui definindo o amor em si, nem classificando o infinito – inclassificável pois infinito – mas apenas descrevendo três maneiras que nós humanos vivemos o amor, conforme percebi em minha vivência.

 

Vamos lá então:

 

O amar que se distancia do amor burguês, de que trato aqui:

 

E eis que um dia nasceu o amor burguês:
Amor posse, propriedade, milimétrico, calculado, contratado, gado marcado, cercado, guardado, escravizado, investimento, aliançado, acorrentado, engaiolado, encoleirado, conveniente, empreendimento, negociado, societário, vigiado, imobilizado, barganhado, bem de consumo, escolhido, hierarquizado, construído, familiado, pronto e acabado.”

 

e que se aproxima do que chamei de “amor dos antigos” – por tentar resgatar sombras e fiapos do mais próximo ao que teria sido o amar antes da invasão do pensamento burguês em todas as faces de nossa vida – sintetizado aqui:

 

Mas nas florestas de nossas entranhas o amor dos antigos ainda espreita: asas de Eros chamando sua inocente Psiquê, gerando filha Volúpia, Espírito seduzindo almas inconsequentes para a pura fruição, para o carinho sem medida, união sem porquê, insensatez, que existe no agora, aventura, vertigem, leve como uma brisa, estranho como um demônio, imortal como o Olimpo.”

 

este amar menos propriedade e mais alinhado com uma natureza humana essencial, que possui, como vejo, raízes estruturais no modus operandi da própria teia da vida que a construiu, poderia ser narrado em três dimensões ou momentos:

 

Viver o amor por si mesmo;

Viver os amores casuais;

Viver os amores destinais.

 

VIVER O AMOR POR SI MESMO

 

Numa visão superficial, o amar a si pode parecer narcisismo em exaltação a um ego inflacionado, um modo qualquer de individualismo extremado. Mas é justo o oposto: viver o amor por si mesmo não só está em concordância com o viver o amor pelos que estão ao redor como parece ser pressuposto mesmo para estes outros amares.

 

Seu fundamento deriva do “cuidado de si” que Foucault aborda em sua obra.

 

Em primeiro plano, é um amplo dar conta de si, um poder e liberdade de satisfazer as próprias demandas sejam quais forem, superficiais e breves ou profundas e perenes. E fazer isto como um gesto de amor, como um carinho a si, um afeto, algo que ninguém lhe deve, mas tão somente a própria pessoa para ela mesma.

 

Entram aqui dois campos diversos e, acredito, igualmente importantes: amar a si dando conta das demandas comezinhas do dia-a-dia e amar a si no plano da descoberta de sua verdade conceitual, essencial, ou seja, filosofar-se.

 

Na esfera do dia-a-dia estamos entre coisas como dar conta da própria alimentação, roupa, higiene, saúde, casa etc, sem para isto depender de terceiros, como esposa, mãe, pai, marido. É algo como ser sua própria esposa/marido, mãe/pai, de modo a que este carinho e atenção que normalmente “terceirizamos” seja por nós mesmos propiciado e, diria até, reconquistado.

 

Nisto há uma tomada de poder extremamente contundente, pois construímos assim uma relação de independência e autonomia pessoal nas mais diversas e profundas faces de nossas vidas. Não procuraremos, por exemplo, uma mulher que nos substitua a mãe, e assim, as mulheres de nossas vidas não terão como estabelecer contra nós uma relação de domínio, como as que nossas mães possivelmente tiveram conosco e tivemos de vencer um dia para nos tornarmos adultos. Isto sem mencionar os “maridos provedores”, escravo-escravizantes, com os mesmos resultados.

 

Este trato carinhoso e cuidadoso consigo mesmo no comezinho já começa a estabelecer um movimento circular onde o que com carinho fazemos a nós em nosso ambiente (roupas, casa, comida etc) retorna à nossa psiquê como um afeto autoestruturante, que já em si exerce grande força contra as ilusões a que chamamos, num pacote só, de “solidão”. Este retorno se faz em níveis provavelmente pré-verbais, tomada de consciência de que somos importantes e necessários, especiais, únicos etc, pois, se somos cuidados (ainda mais por nós mesmos) algo em nossa consciência nos reconhece dignos de viver e nos realizar enquanto felicidade.

 

Em contra-parte ao comezinho vem o filosofar-se. Disse Epicuro: "Aquele que diz que não é ainda, ou que não é mais tempo de filosofar, parece àquele que diz que não é ainda, ou não é mais tempo de atingir a felicidade."

 

Não se trata de um perverso dever de auto-confessar-se culpas, mágoas, erros, acertos, julgar-se, mas sim o desafio virtuoso, rebelde e meio guerrilheiro até de conscientemente subjetivar-se como um exercício de poder (Foucault novamente) em que eu me construo conforme a minha verdade, de maneira também única e independente das opiniões vigilantes de uma sociedade que queira, ela, me subjetivar, sujeitando-me às suas demandas.

 

Descobrir a própria verdade, como essência inata e inexorável, traduz-se no que Campbell alerta ser a descoberta do “fogo da felicidade”, algo que deve ser nossa busca contínua e nosso encontro perene, e que surge como um querer intensamente provocante. Esse o querer mais genuinamente filosófico: eterno conhecer-se a si mesmo.

 

Hegel alerta, entretanto, que este autoconhecimento é inerente ao espírito, e em tudo o que fizermos inexoravelmente estaremos neste processo de autoconhecer-se. Sim, mas neste amar a si mesmo este processo além de se tornar verbalmente conhecido de nosso intelecto, passa a ser conscientemente fruído por nosso coração. Nossa bela psiquê (alma) é seduzida pelo seu erótico marido “Eros”, erigindo deste encontro movimentado e voluptuoso, a virtude maior de saber-se a si como um sabor único e necessário a si mesmo e ao mundo.

 

Trata-se aqui de agir, e agir é sempre arte, momento em que a própria vida ergue-se como a obra prima de Michelangelo, frente à qual só podemos dizer: “Parla!”

 

Contrapõe-se tudo isto ao disciplinado e complicado “tornar-se” que a sociedade atual nos impõe a todo instante com seus relógios e horários, obrigações e patrões, clientes, filhos e maridos com suas demandas fúteis, exigindo de nós um eterno descontentamento, uma perene busca da quimera da eficiência, produtividade, sucesso, satisfação de expectativas e mais armadilhas afins.

 

Contrapõe-se também a tudo isto a noção de que cuidar de si ao ponto de um profundo apaixonar-se por si mesmo, um intenso amor a si, é algo de narcisista e que dedicar-se a isso significaria egoísmo, individualismo, indiferença com o próximo – principalmente quando o próximo é marido ou esposa etc...

 

Na verdade, quem exercita no comezinho e no filosófico o amor a si percebe que esta é a única forma de superação da carência crônica do homem contemporâneo, aquela que ele busca suprir através de outras pessoas, mãe, namoradas, esposas etc, – no fundo tornadas objeto de consumo – mas carência que sempre se manterá existindo simplesmente pelo fato de que somente o próprio sujeito é agente capaz desta solução.

 

O amor que volta-se a si acende como um sol de afeto que nos traz a sensação de completude que normalmente buscávamos em “almas gêmeas” e outras ilusões. Algo bem semelhante ao sentimento de estarmos bem acompanhados por uma pessoa afetuosa e cuidadosa que nos ampara e nos supre essencialmente. Mas com a enorme diferença de não devermos isto a quem quer que seja, e assim não estarmos sob um doce domínio, que, mesmo sendo doce, é ainda assim domínio e sujeição.

 

Livres dele, temos caminho aberto para o constante ensaio arriscado e desafiador do viver e para um outro assunto de outra natureza: a felicidade, paz flamígera, para muitos insuportável, encontrada no eixo da roda viva do coração.

 

E assim nasce, no campo desta liberdade, a possibilidade de realmente amar alguém além de nós.

 

VIVER OS AMORES CASUAIS

 

Amores casuais não me parecem em nada com o esporte egocêntrico e algo pornográfico que vem se tornando a “conquista”, em que disputa-se quantidades de beijos e mais afetos, num torpe subproduto do amor burguês focado aqui na mesma lógica de competição por mercado que movimenta os empreendimentos burgueses em geral.

 

Mas este ridículo mercado burguês de beijos e “azarações” dá ensejo a um tema preliminar: a grande diferença que existe entre fruir um prazer natural e imediato daquela busca ansiosa e neurótica de um outro “prazer” – hoje tido como o normal – que se mostra mediatizado por fantasias internas e pelas consequentes e constantes desilusões.

 

Percebo que há o prazer que se coloca no imediato, sem que busquemos, que de nós apenas pede o reconhecimento e a entrega incondicional, segundo a segundo; e há o prazer que projetamos em nossa imaginação como expectativas, procurando depois, efetivá-lo em uma realidade imediata qualquer.

 

No primeiro vejo um prazer libertador, talvez a verdadeira volúpia, que sempre nascerá por si mesmo, no agora, em todos os eventos que se colocarem no viver. Tende a uma visão um tanto inocente e bucólica da vida, bastante própria das crianças, mas que envolve todo o erotismo, tanto num plano filosófico e intelectual – ou mesmo espiritual – como no sexual, corpóreo, tátil e físico. Quando nos entregamos ao sexo, mas este sexo coloca-se como um prazer dado pelo imediato, e não buscado pelo mediato da imaginação, o ato voluptuoso toma também componentes de inocência, tão completamente adulto e intenso, erótico, quanto algo como crianças brincando com coisa extremamente excitante.

 

O prazer mediatizado por nossas imaginações, sonhos alimentados por uma mente que já parte do princípio de ser carente e infeliz, e que busca no campo do efetivo uma “realização”, mas no fundo mera compensação, mero refugiar-se de si, alienação, nos afasta do que é de fato efetivo que é o simples reconhecimento. O prazer há de ser mais reconhecido que realizado. Mais revelado por enunciações dos humores da alma do que executado pela autocondenação do julgamento.

 

Há nisto, vê-se, uma constante absolvição, e é aí, nos prazeres que se colocam por si no imediato, que surgem os amores casuais, e onde eles se diferenciam da promiscuidade.

 

Os amores casuais, de fato, só são possíveis aos que têm em plenitude realizado o amor por si mesmo, e, a partir daí, sentem-se fortes o suficiente para fruir prazeres não buscados e amores que não se tornarão dependência ou sujeição.

 

Isto porque não são os amores conquistados do mundo do prazer imaginado, mas são os amores autoentregues naquilo que acontece como que de graça. Demandam abertura de alma, carinho gratuito, conhecimento dos segredos de um constante morrer, em fundamental contradição ao empreendedor e vazio galanteador das noitadas burguesas, frias sombras do que um dia foi o culto à Baco.

 

São amores apaixonados, intensos talvez, volúpia em vários níveis, mas sempre um encontro interessante consigo mesmo, na descoberta e diversidade de tantos olhos e olhares que nos vão influenciando e desenhando a nós próprios, refletindo nossa alma.

 

Mas apenas são casuais porque breves, não guardam fundamento no destino, não passam além do campo dos momentos, não se enraízam, naquelas almas, no conceito essencial de si mesmo, não tanto porque não tenham ressonâncias com o essencial de cada um dos dois, mas mais porque não vibram junto com o tom fundamental que dá sentido e coerência profunda àqueles existires.

 

Como não estão ancorados nesta coerência fundamental, assim com vêm eles vão, mas não em vão, já que deixam os aprendizados e vivenciações que necessariamente nos construirão e nos permitirão reconhecer e suportar os amores destinais, marcados por surgirem de uma racionalidade própria à natureza das coisas como algo a ser vivido por toda uma vida, das várias que temos em uma encarnação.

 

VIVER OS AMORES DESTINAIS

 

Como já alertei, não estou classificando ou mesmo hierarquizando os amores, posto que além de não ser possível classificar ou hierarquizar o infinito, no fundo, tratam-se todos do mesmo amar. Mas podemos sim dizer que saber viver o amor a si mesmo irá influenciar poderosamente na possibilidade de reconhecer um amor destinal, e também de permitir-se os amores causais.

 

Amores destinais são vividos de uma maneira diferente do casuais.

 

Se tal qual os casuais não são amores buscados, e por isso mesmo não entram em cálculos de conveniências, tão próprio dos burgueses, tais amores destinais é que nos buscam, já trazendo consigo os incríveis sinais das infinitas casualidades propiciadoras do encontro. Trazem consigo a sina.

 

São amores que expandem seu influxo aos conceitos fundamentais de nossa existência e, por isso mesmo, são reveladores de nossa história mitológica ou espiritual pessoal. Pode-se dizer kármicos estes amores, mas não com a conotação de castigo – pois karma também é benção – mas sim do que nos eleva a um outro estágio da própria trajetória de nossas psiquês no caminho para sua imortalidade.

 

Amores-Eros, que seduzem poderosamente, e trazem consigo o componente de estranhamento, tão próprio desse Deus que não queria mostrar sua face à sua amada psiquê. Há algo de demoníaco e subversivo nestes amores destinais, que parecem já chegar anunciando a própria morte, mas de fato a morte dos amantes, que serão imolados no altar do Olimpo. E morrerão mesmo! pois tais amores nos conduzem a outros planos do viver, necessariamente antecedidos pela morte dos antigos Chrestus.

 

Incapazes de suportar este amor tão profundo, as pessoas normalmente enchem suas vidas das expectativas fúteis do amor burguês, e tão insatisfatórias vão ficando estas vidas que logo degradam à infidelidade pornográfica.

 

Mas se uma dada psiquê se entregar ao estranho e sedutor Eros, deixando-se elevar por ele aos ares que irão ao Olimpo, se ela suportar isto, a vertigem, o receio de morrer, a extrema insegurança, vai se tornar cedo ou tarde imortal, pois vai ser tocada em profundidade pelo que é imortal, e então vai experimentar, vivendo no temporal, o que é Eterno.

 

Amores destinais são eternos por sua própria natureza, não dependentes daquelas iniciativas aburguesadas contra a “rotina” ou mesmo daquelas estratégias de conquista e tantas futilidades alienadas. São amores que parecem estar desde sempre tatuados na alma dos amantes, que não parecem surgir, parecem ser descobertos, efetivamente revelados pela própria vida.

 

Fogem, em muito, aos controles que alguns ainda desejam ter sobre suas vidas, pois não demandam escolhas, mas apenas, e novamente, entrega.

 

Se não vividos, ficarão para sempre como lacunas imperdoáveis naquela vida, que a própria psiquê – agora revoltada – irá certamente cobrar como neurose, amargura e doenças.

 

Mostrando toda sua monstruosidade, provavelmente desestabilizarão inclusive os mais fortes e exímios artistas do cuidar de si, pois serão traduzidos como uma imperdoável lacuna, vazio e perda de sentido de vida.

 

Enfim, não viver este tipo de amor, por receios tolos ou mesmo pelas mais importantes e fundamentadas obstruções, já em si mesmo representa a morte e o declínio do que há de mais sagrado e importante na vida de alguém: seu conceito fundamental, sua substância inata, seu espírito.

 

Algo, talvez, irreparável.

 

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Comentários

Nome: lourdes

Comentado em: 18/06/2011 21:28

De qualquer forma,qualquer forma de amor, ou de amar... Vale a pena! Parabens pelo trabalho! Muito bom!

 

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