Carta Celeste

Semeie um pensamento, colherá um fato; semeie um fato e terá um hábito; semeie um hábito e formará um caráter; semeie um caráter e obterá um destino. - Parafraseando Henrique José de Souza

Artigo de Cor:  Azul e Vermelho Azul e Vermelho
Tópico: Sala de Estar - Subtópico: Conversando com você

SEGREDOS DA MORTE

Publicado em 07/09/2010 12:29 e Atualizado em: 07/09/2010 12:50

Luto: A mansão dos mortos.

 

"desceu à mansão dos mor­tos; ressuscitou ao terceiro dia..."

 

 

Após a morte – breve instante – seja ela a de corpos, relações, ciclos de vida e consequentes visões filosófico-espirituais, ou mesmo a morte contínua dos instantes, surge o luto: um cortejo fúnebre à mansão dos mortos, local para onde se dirige o Crestos que, suficientemente maduro, anseia-se Cristo. Lá passará três dias, três momentos, crepúsculo, meia-noite, madrugada.

 

No crepúsculo, o sol daquele dia irá gradualmente declinar até ir embora. Se é gradual é também inexorável. A luz, o calor, a vida, fatalmente deixarão nosso cenário. O que vivia vai lentamente indo embora, e seu crepúsculo crescente vai machucando devagar e cada vez mais fundo. Saímos do mundo em que víamos as coisas claramente, e, cada vez mais vamos entrando no momento em que nada se vê, campo do desconhecido e do sem-controle.

 

Tudo o que podemos fazer no crepúsculo – e nisto sempre haverá sofrimento – é deixar ir, deixar morrer, deixar apagar aquilo que um dia foi fonte de vida, um sol.

 

Quando as lembranças (ou mesmo esperanças) forem-se esvaindo, a noite vem escura, dando entrada ao segundo momento do luto: a meia-noite.

 

Neste momento estaremos em plena escuridão. A luz tênue da lua, se houver ainda a lua, será apenas suficiente para revelar nossos próprios fantasmas, que dançarão sua dança macabra ao nosso redor, como os Elfos que prendem as almas em seus círculos e as mantém ali até a morte. Fantasmas da solidão, do desamparo, da fraqueza, da autoinsignificância, são eles que se apresentam em toda sua fluida realidade, tecendo uma teia de sentimentos pegajosos e nojentos, que nos envergonham e nos fazem querer fugir, correr, se livrar. Mas quanto mais nos debatemos, mais nos aprisionamos nesta teia, até o ponto da total imobilidade, quando finalmente nos entregamos à morte, e ela surge como a aranha da teia dos fantasmas, e precisa, corre até onde estamos, nos envolve inteiros em seu casulo mortal, e então suga toda nossa vitalidade, leva embora todos os nossos sonhos, absorve toda a nossa esperança e paz.

 

Esta é a meia-noite, ápice da morte, momento da total falta de sentido, da completa escuridão, onde qualquer perspectiva, para qualquer lado que nos voltemos, futuro, passado, presente, ou mesmo eternidade, só nos revela um muro negro, rente aos nossos olhos, feito dos tijolos da total ausência de luz.

 

Agora, definitivamente mortos e entregues ao seu domínio, vemos-nos passar pelo ponto de aleatoriedade absoluta que caracteriza tão profundamente a todos os futuros como concretamente imprevisíveis, ou os passados como aquilo que não volta, toda mutação como definitiva e irreversível. Neste ponto onde o caos é absoluto e infinito, a completa destruição faz parte do menu das possibilidades, mas, também, a emergência de uma nova estrutura.

 

A nova estrutura, se houver, será necessariamente mais complexa que a anterior morta; será construída por si mesma – autopoiética; e será consequente com a história estrutural de tudo o que passou, mas determinada pelas suas mais diminutas e recessivas características. Aí é que existe o aprendizado que podemos chamar de compreensão ou sabedoria, pois o que morre incorpora, em uma nova estrutura auto-construída, os sabores e saberes antigos, mas refeitos e ressignificados pelo octópode cirurgião que vem do centro de nosso self cegar-nos completamente.

 

É assim que de si mesmo, quase sem querer, a nova manhã nasce. Também lenta, também inexorável, mas ainda fria, e cheia de novos desafios. E mesmo assim, nova, fresca, e viva. Ressurreição.

 

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Comentários

Nome: anonimo

Comentado em: 08/09/2010 12:06

nuss onde vc se baseou nisso q acabou de escrever???

Reposta

Olá! Talvez, mais importante do que isso seja você utilizar o texto para ajuda-lo a refletir sobre o tema. Mas me baseei quase que inteiramente em minhas vivências pessoais, com noções apreendidas nas cartas de JHS (particularmente sobre o mistério Rosa-Cruz, ou do Cristo), alguma coisa de Jung (sobre a aranha), e conceitos de Maturana (autopoiese) e de Capra (auto-organização). Estas noções, acredito, fazem parte de mim como linguagem que uso para meus próprios pensares. Abraço!

 

Nome: Fran

Comentado em: 14/09/2010 12:28

Sabe, q gratidão imensa eu sinto por Deus, por ter-nos permitido exercer nossa compaixão absoluta, e acima de tudo por ter floreado meu caminho com almas amigas, com antigos guerreiros, reis e rainhas q n se perderam na ilusão terrena. E sobretudo, louvado seja Aquele q nos inquieta sempre, que nos move, nos mata e ressuscita a cada experiencia adquirida e mesmo assim mantem nossos laços estreitos e nossos caminhos se cruzando...sempre!

 

Nome: miguel mouta

Comentado em: 21/08/2016 21:14

Definitivamente, dentre os infinitos quais forem , o única essência elo comum é a mentira sórdida.

 

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