Carta Celeste

Não busqueis a lei em vossas escrituras, porque a Lei é a Vida, enquanto o escrito está morto... (Evangelho Essênio da Paz) - Jesus, o Nazareno

Artigo de Cor:  Azul Azul
Tópico: Lado B - Subtópico: Libertação-reflexão

Vida eterna

Publicado em 16/12/2012 13:38 e Atualizado em: 16/12/2012 13:41

No homem, que vive na linguagem, e, por consequência dela, no tempo, a característica básica da vida de manter-se a si própria também “linguajeou-se”, por assim dizer.

 

Desta forma, a ruptura da estrutura em fluxo circular (a morte) traz ao homem algumas experiências particulares:

 

- Como mamífero emocional, ele sente em profundidade esta ruptura, ou, em outras palavras, tal ruptura produz nele estados corporais fortes e marcantes, pois diz respeito à característica básica da vida, que funda-se na constante ação de manter-se a si mesma.

 

- Como ser social, ele tem uma relação de dependência em relação aos outros seres humanos, dependência esta própria de sua biologia, chamada de “biologia do amor”, no sentido de ser aquela que se baseia na aceitação do outro em convivência, e que nisto funda o próprio humano. Então, à força do estado corporal (emocional) que a ruptura do fluxo de vida já em si representa para a própria vida, soma-se a força do estado corporal (emocional) que a ruptura do laço de convivência representa para o humano, como frontal oposição ao que nos constrói como humanos, ou seja, a convivência.

 

É interessante entender que a convivência não só nos construiu um dia, há milhões de anos atrás, como humanos, mas nos constrói agora como um certo ser humano em particular. Então cada indivíduo próximo ou fundamental nesta construção que morre representa também, literalmente e não apenas metaforicamente, a morte daquele aspecto dos seres humanos de sua convivência, que continuamente alimentava-se desta convivência em sua perene construção e reconstrução.

 

- Como ser linguajeante, as coisas para o ser humano estendem-se no tempo por ele mesmo construído em sua ação linguajeante, de modo que, ao coordenar ações entre si de forma recursiva, os seres humanos constroem coisas (distinções arbitrárias do fluxo universal), cuja existência (manutenção da distinção) não se opera mais como um fluxo circular como a vida é, mas empresta deste fluxo sua característica estabilidade, destacando-a de sua essência de ser fluxo, produzindo a noção de “duração” no tempo, como algo mais estático do que a simples “manutenção” de um fluxo, que seria uma contínua ação, e, por isso mesmo, sempre contingente.

 

Desta forma, a vida em fluxo foi transformada pelos humanos em coisa, distinta do entorno, e, quando refere-se a outro ser humano, recebe toda a carga emocional própria de nossa biologia construída e baseada na coexistência, de modo que assim fica claro o quão insuportável é para qualquer ser humano a morte de alguém próximo e fundamental em seu existir como humano.

 

Assim, não acredito que em nenhum momento ou em qualquer cultura, seja de matriz patriarcal ou matrística (Maturana), tenha havido uma relação simples ou fácil com a morte do semelhante.

 

Sempre a morte, acredito, foi traumática.

 

Neste contexto, uma vez que nossa consciência se baseia em coisificar o mundo, é natural que tenhamos um dia postulado a existência de uma determinada “coisa” que sobrevivesse àquele sempre traumático fenômeno da morte.

 

Criamos a alma que não morre naquilo que foi certamente o mais heroico ato de legítima defesa de nossas estruturas fundamentais, como vida e como humanos.

 

E deste jeito, pudemos nos manter em coexistência com aqueles seres fundamentais a cada um de nós, e assim, manter, de certa forma, a parte de nós mesmos que foi construída naquela específica e tão especial convivência.

 

Neste contexto é sintomático não atribuirmos aos outros animais, normalmente, a possibilidade de também terem uma “alma imortal” como a têm os humanos, e mais, não costumarmos produzir narrativas emocionais quanto à alma de seres humanos distantes de nós, cultural ou socialmente falando, a ponto de, em momentos em que a crença na alma era ainda muito mais forte que hoje, ser senso comum que negros ou índios, por exemplo, provavelmente não tivessem alma.

 

 

 

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