Carta Celeste

Não busqueis a lei em vossas escrituras, porque a Lei é a Vida, enquanto o escrito está morto... (Evangelho Essênio da Paz) - Jesus, o Nazareno

Artigo de Cor:  Azul e Vermelho Azul e Vermelho
Tópico: Eubiose - Voz do Universo ecoando - Subtópico: Raízes filosóficas - Contextualizando

Espíritos Livres (por Nietzsche)

Publicado em 29/09/2010 23:27 e Atualizado em: 29/09/2010 23:31

 

 

 

do prefácio de "Humano, Demasiado Humano"

 

(…)

 

Foi assim, portanto, que uma vez, quando precisei disso [ilusão], inventei também para mim os “espíritos livres”, aos quais é dedicado este livro melancólico-corajoso com o título Humano, Demasiado Humano: semelhantes “espíritos livres” não existem, nunca existiram, mas então, como já disse, tinha necessidade de sua companhia para ficar com coisas boas no meio de coisas más (doença, isolamento, exílio, inatividade); como valentes companheiros e fantasmas, com os quais se conversa e se ri, quando se tem vontade de conversar e rir, e que se manda para o diabo, quando se tornam aborrecidos, como um substitutivo de amigos que fazem falta.


Se um dia pudesse haver semelhantes espíritos livres, nossa Europa teria entre seus filhos de amanhã e de depois de amanhã semelhantes companheiros alegres e ousados, corporais e palpáveis e não apenas como no meu caso, enquanto espectros e jogos de sombra de um solitário; disso sou eu quem menos gostaria de duvidar. Já os vejo vir lentamente, lentamente; e talvez faça alguma coisa apressar sua vinda se descrever antecipadamente com que destinos os vejo nascer, por que caminhos os vejo chegar?


Pode-se supor que um espírito, no qual o tipo “espírito livre” deva um dia tornar-se maduro e saboroso até a plenitude, tenha tido seu acontecimento decisivo numa grande liberação e que antes tivesse sido mais um espírito servo que parecia para sempre amarrado a seu canto e a seu pilar.


Qual a amarra mais firme? Quais as cordas que são quase impossíveis de romper?


Entre os homens de uma qualidade elevada e seleta serão os deveres: esse respeito, como convém à juventude, essa timidez e delicadeza diante de tudo o que é venerado há muito e digno, o reconhecimento pelo solo em que cresceu, pela mão que o guiou, pelo santuário em que aprendeu a orar – serão mesmo seus momentos elevados que o ligará mais firmemente, que o obrigará mais duradouramente.


Para essa espécie de servos a grande liberação chega de repente, como um terremoto: a jovem alma é de um só golpe sacudida, derrubada, arrancada – ela própria não entende o que se passa. Um ímpeto e um fervor imperam e se apoderam dela como um ordem; uma vontade, um desejo desperta para seguir em frente, para onde quer que seja, a qualquer preço; uma violenta e perigosa curiosidade por um mundo desconhecido arde e flameja em todos os seus sentidos. “Antes morrer que viver aqui” – assim fala a imperiosa voz da sedução: e este “aqui”, este “em casa” é tudo quanto ela amou até então! Um repentino medo, uma desconfiança em relação a tudo o que ela amava, um lampejo de desprezo por aquilo que para ela significava “dever”, um desejo sedicioso, voluntário, impetuoso como um vulcão, de expatriação de afastamento, de resfriamento, de desengano, de gelificação, um ódio ao amor, talvez um gesto e um olhar sacrílego para trás, para onde ela até então havia orado e amado, talvez um rubor de vergonha pelo que acaba de fazer e ao mesmo tempo um grito de alegria por tê-lo feito, um arrepio de embriaguez e de prazer interior, em que se revela uma vitória – uma vitória? Sobre quê? Sobre quem? Vitória enigmática, problemática, contestável, mas ainda assim uma primeira vitória: - aí estão os males e as dores que compõem a história da grande liberação.


É ao mesmo tempo uma doença que pode destruir o homem essa explosão primeira de energia e de vontade de se autodeterminar, de se autoestimar, essa vontade de livre: e que grau de doença se desvenda nas tentativas e nas singularidades selvagens pelas quais o liberto, o libertado procura doravante provar seu domínio sobre as coisas! Ele ronda feroz em torno de si, com uma avidez insaciável; o que ele captura como despojos deve pagar a perigosa excitação de seu orgulho; ele rasga aquilo que o atrai. Com um sorriso maldoso, cerca tudo o que encontra velado, poupado por algum pudor: tenta ver com que se parecem essas coisas quando são postas ao inverso. Há nisso arbitrariedade e gosto pela arbitrariedade, se ele agora dispensa talvez seu favor ao que até então tinha má reputação – se vai rodeando curioso e auscultador em torno do proibido.


No fundo de suas agitações e de seus transbordamentos – pois, pelo caminho, está inquieto e desorientado como num deserto – surge o ponto de interrogação de uma curiosidade cada vez mais perigosa.


Não se pode inverter todos os valores? E o bem é talvez o mal? E Deus nada mais uma invenção e uma astúcia do diabo? Talvez, em última análise, tudo esteja errado? E se nós nos enganamos, não somos por isso mesmo também enganadores? Não temos de ser igualmente enganadores?” – Esses são os pensamentos que o guiam e que o extraviam, sempre mais avante, sempre mais longe. A solidão o cerca e o envolve, sempre mais ameaçadora, mais estranguladora, mais pungente, essa temível deusa e mater saeva cupidinum – mas quem sabe hoje o que é a solidão?...


Desse isolamento doentio, do deserto desses anos de experiências, o caminho ainda é longo até aquela imensa segurança e transbordante saúde, que não se pode prescindir da própria doença como meio e anzol de conhecimento, até essa liberdade amadurecida do espírito, que é também autodomínio e disciplina do coração e que permite o acesso para maneiras de pensar múltiplas e opostas; até esse estado interior, saturado e repleto do excesso de riquezas, que exclui o perigo de que o espírito se perca, por assim dizer, a si mesmo em seus próprios caminhos e fique inebriado em algum recanto; até essa superabundância de energias plásticas, curativas, educativas e reconstituintes, que é justamente o sinal da grande saúde, essa superabundância que confere ao espírito livre o perigoso privilégio de poder viver a título de experiência e se entregar à aventura: o privilégio de domínio do espírito livre!


Entrementes, pode haver longos anos de convalescença, anos cheios de fases multicores, mescladas de dor e de encantamento, dominadas e conduzidas pelas rédeas graças a uma tenaz vontade de saúde que já se atreve muitas vezes a vestir-se e a mascarar-se de saúde.

 

Há aí um estado intermediário, de que um homem com esse destino, mais tarde, não consegue se recordar sem emoção: são suas uma luz, uma fruição do sol pálido e delicado, um sentimento de liberdade de pássaro, vista de pássaro, de atrevimento de pássaro, uma combinação em que a ambição e o desprezo terno se ligaram. Um “espírito livre” – essa expressão fria palavra faz bem nessa condição, quase que aquece. Já se vive, não mais nos laços do amor e do ódio, sem sim, sem não, voluntariamente perto, voluntariamente longe, de preferência escapando, evadindo-se, alçando voo, ora fugindo, ora voando para o alto; está-se mal acostumado como todo aquele que viu alguma vez uma imensa diversidade de objetos abaixo de si – e a pessoa se torna o contrário daqueles que se preocupam com coisas que não lhes dizem respeito.

 

De fato, ao espírito livre dizem respeito doravante somente coisas – e quantas coisas! – que não o preocupam mais...

 

Mais um passo na cura e o espírito livre se aproxima de novo da vida; lentamente, é verdade, quase recalcitrante, quase desconfiado. Em torno dele tudo se faz mais caloroso, mais dourado, por assim dizer; sentimento e simpatia adquirem profundidade, ventos brandos de todo tipo cruzam por cima dele. Ele tem quase a impressão de que pela primeira vez seus olhos se abrem para as coisas que estão próximas. Está perplexo e fica sentado em silêncio: onde estava ele, então? Essas coisas próximas e ainda mais próximas: como lhe parecem mudadas! Que penugem e que encanto elas adquiriram, entretanto! Ele lança para trás um olhar de reconhecimento por suas viagens, por sua dureza e por seu alheamento de si, por seus olhares ao longe e por seus voos de pássaro nas frias alturas. Que bom não ter ficado como um carinhoso e tristonho preguiçoso sempre “em casa”, sempre “ao lado de si”! Estava fora de si; não há nenhuma dúvida.

 

Só agora é que ele se vê a si próprio e que surpresa encontra nisso! Que arrepios nunca experimentados! Que felicidade mesmo no cansaço, na antiga doença, nas recaídas de convalescente!

 

Como lhe agrada ficar tranquilamente sentado com sua dor, desfiando paciência, deitado ao sol! Quem entende como ele a felicidade do inverno, as manchas de sol na parede! Esses convalescentes, outra vez meio voltados para a vida, esses lagartos são os animais mais agradecidos do mundo e também os mais modestos.

 

– Há alguns entre eles que não deixam passar um dia sem pendurar um pequeno cântico de louvor na orla da veste que se arrasta. Falando a sério: é uma cura radical contra todo o pessimismo (câncer, como se sabe dos velhos idealistas e dos heróis de mentira) adoecer à maneira desses espíritos livres, ficar doente um bom tempo e depois, ainda mais devagar, ainda mais devagar, ficar bom, quero dizer, “ficar melhor” de saúde. Há sabedoria nisso, sabedoria de vida em receitar a si próprio durante muito tempo a saúde em pequenas doses.

 

Em determinado momento, pode acontecer finalmente entre os súbitos clarões de uma saúde ainda incompleta, ainda instável, que para o espírito livre, cada vez mais livre, comece a se revelar o enigma dessa grande libertação que até então havia esperado, obscuro, suspeito, quase intocável, em sua memória. Se, durante muito tempo, mal ousava perguntar-se: “Por que tão afastado? Tão só? Renunciando a tudo o que eu respeitava? Renunciando a esse próprio respeito? Por que essa dureza, essa desconfiança, esse ódio contra minhas próprias virtudes?”

 

– Agora ele ousa, pergunta em voz alta e até já ouve alguma coisa como resposta. “Tu devias tornar-te senhor de ti, senhor de tuas próprias virtudes. Antes, elas eram senhoras de ti, mas elas não podem ser senão teus instrumentos ao lado de outros instrumentos. Devias ter o domínio sobre teu pró e teu contra e aprender a arte de agarrá-los e dispensá-los segundo teu objetivo superior do momento. Devias aprender a tomar o elemento de perspectiva que há em toda a avaliação – o deslocamento, a distorção e a aparente teleologia dos horizontes e tudo o que diz respeito à perspectiva; e também a grande parte da ignorância a respeito dos valores opostos e de todas as perdas intelectuais, com as quais cada pró e cada contra se faz pagar.

 

Devias aprender a captar a injustiça necessária que subsiste em todo pró e contra, a injustiça como inseparável da vida, a própria vida como condicionada pela perspectiva e sua injustiça. Devias sobretudo ver com teus próprios olhos onde é que a injustiça é sempre maior, a saber: onde a vida tem seu desenvolvimento mais mesquinho, mais restrito, mais pobre, mais rudimentar e onde, no entanto, não pode deixar de se tomar ela própria por finalidade e medida das coisas e, por amor à sua subsistência, esmigalhar e pôr em causa, furtiva, mesquinha e incessantemente o que é mais nobre, maior, mais rico – devias ver com teus olhos o problema da hierarquia e a maneira pela qual o poder, o direito e a amplitude da perspectiva crescem juntos à medida que se elevam.” “Devias” – basta, o espírito livre sabe doravante a qual “deve” ele obedeceu e também qual é agora seu poder, o que só agora – lhe é permitido...

 

Dessa forma é que o espírito livre se dá uma resposta com relação a esse enigma da liberação e acaba, ao mesmo tempo que generaliza seu caso, por se decidir assim quanto à sua experiência. “O que aconteceu comigo, diz ele, deve acontecer a todo aquele em quem uma missão quer tomar seu corpo e “vir ao mundo”. O poder e a necessidade secreta dessa missão agirão entre e em cada um de seus destinos tal como uma gravidez ignorada – durante muito tempo antes que ele próprio se tenha dado conta dessa missão e saiba seu nome. Nossa vocação toma conta de nós, mesmo quando não a conhecemos; é o futuro que dita a regra a nosso hoje.

 

Admitindo que o problema da hierarquia é aquele de que nós, espíritos livres, podemos dizer que é o nosso problema: agora, ao meio-dia da nossa vida, é que finalmente compreendemos que preparativos, rodeios, provas, experimentos, disfarces, eram necessários ao problema antes que ousasse surgir diante de nós e como tivemos primeiro que fazer de corpo e alma a experiência dos mais frequentes e mais contraditórios estados de crise e de ventura, como aventureiros, como circunavegadores deste mundo interior que se chama “homem”, como mediadores de cada grau “mais alto” e “relativamente superior”, que também se chama “homem” – pressionando em todas as direções, quase sem medo, não desdenhando nada, não perdendo nada, saboreando tudo, purificando todas as coisas e, por assim dizer, peneirando tudo para tirar delas o acidental – até que finalmente nós, espíritos livres, tivéssemos o direito de dizer: “Aqui está um problema novo! Aqui está uma longa escada, em cujos degraus nós mesmos sentamos e pelos quais subimos – degraus que nós mesmos fomos em algum momento! Aqui está um mais alto, um mais baixo, um abaixo de nós, uma gradação de comprimento imensa, uma hierarquia que vemos: aqui está – nosso problema!”

 

(…)

 

 

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Comentários

Nome: Francine

Comentado em: 20/10/2010 13:30

Mto bom o texto! Êta liberdade dolorida... Abrir os olhos e enxergar de fato aquilo que antes só se via, não há regozijo maior para a alma que foi jogada na vida sem muito entender ou se lembrar de sua verdadeira natureza.

 

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