Carta Celeste

Toda profissão é sacerdócio ou comércio, segundo seja exercida pelo altruísmo ou pelo egoísmo. - Henrique José de Souza

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Tópico: Eubiose - Voz do Universo ecoando - Subtópico: Raízes filosóficas - Contextualizando

Verdade objeto - Verdade sujeito

Publicado em 26/08/2010 3:30 e Atualizado em: 26/08/2010 14:27

 

Comecemos pensando sobre isso: A verdade hoje é tida como objeto a ser conhecido.

 

Verdade Objetiva

Quando dizemos algo sobre a verdade, dizemos que queremos “ver” a verdade. E se tomarmos isto como uma tarefa mais profunda, logo vem à nossa mente construir um conhecimento através de estudo meticuloso e disciplinado.

 

Desta maneira, crenças (até como hipóteses científicas) vão sendo ou não justificadas e assim construímos o conjunto das verdades conhecidas e reconhecidas.

 

Este modelo segue o esquema ao lado, retirado da Wikipedia.

 

Este modelo, tão caracteristicamente moderno e ocidental, não é o único entretanto. E talvez, por vários motivos, nem o mais confiável: basta lembrar que deste ponto de vista não se leva em consideração a própria subjetividade de quem constrói o conhecimento.

 

Calcando-se no mito da objetividade e da isenção, tenta um conhecedor subjetivo ultrapassar o limite de sua própria condição e atingir uma já de antemão suposta “verdade objetiva”, que, em última análise, é simples fruto de sua própria subjetividade criativa.

 

Sim, no próprio modelo acima vê-se que no universo das crenças – produções da subjetividade – haveria a área de intersecção com o universo do verdadeiro, e dentro desta intersecção, o conjunto do legitimado por uma particular forma de construção de conhecimento. Lembrando-se sempre, que as formas de legitimação de conhecimento são, por sua vez, legitimadas por algo que terá que ser-lhe também um a priori, e como tal, externo ao conhecimento por meio dele legitimado. Ou seja, provavelmente sempre a “legitimação” é fruto do poder e seu reprodutor (Foucault).

 

Mas a principal questão resume-se basicamente ao fato de que, neste modelo da verdade objeto, tudo é construído no elemento da visão. “Ver” é o pressuposto axiomático de onde partimos para o encontro dessa verdade. É o universo do verdadeiro que se conhece pelo ato de ver. Ver e verdade se confundem neste domínio. Por isto mesmo, a verdade objetiva é a que nasce na crença fundamental da visão, e então, sempre numa relação facial e exterior.

 

Exteriores que se tocam nunca ultrapassarão suas exterioridades, e é por isto que nosso conhecer ocidental não pode atingir essencialidades, senão reflexos e efeitos, e deles, por indução buscar no máximo leis de isomorfismo.

 

Nesta falha fundamental está o fato de nossa ciência explicar tudo menos o que realmente interessa, como vida, amor, liberdade, destino, sentido.

 

Por um momento, inclusive, desistimos destas explicações, relegando-as a uma categoria do pouco prático, do poético e do distante.

 

Esta falência foi levada às suas últimas consequências em Nietzsche, que fez o favor de desconstruir o pensamento fundado em exterioridades, mas com o efeito colateral de nos reduzir a um nada filosófico, sem precedentes no ocidente.

 

Maturana, indo além, demonstra o sistema nervoso – construtor, em última instância, de todo conhecer – como um sistema fechado, ou seja, que não recebe informações ou estímulos do exterior, mas que funciona unicamente com base em si mesmo, apenas “perturbado”, em sua insuperável solidão, por algumas situações exteriores, mas que as compreende como quer, quando quer e se quiser, tudo, com base unicamente em si mesmo.

 

Ele resume o problema do nosso tempo: Todo conhecimento é linguagem, e tudo o que é dito “é dito por um observador”.

 

Assim temos que toda a verdade construída no ocidente fundou-se na falha da exterioridade, própria do sentido da visão. Mesmo quando se procura a si, visualiza-se a si mesmo como se fosse mais uma exterioridade, e nisso projeta-se exterioridades em tudo.

 

Para este modo de conhecer, “invisível” é o mesmo que “incognoscível”.

 

Contrapõe-se a esta noção a de verdade-sujeito.

 

Quando se toma como base ser a verdade o sujeito que constrói o universo, percebe-se que nosso próprio ato de construir crenças e conhecimentos, e tudo o mais que fazemos, é em si mesmo, verdade. Assim não há lugar para o esquema acima, pois o verdadeiro engloba tudo e é sinônimo para o universal absoluto. Se é ela quem age, nada há que não seja verdade construindo não só o mundo mas nosso próprio cérebro, nossas próprias crenças, nosso próprio ser e agir.

 

A verdade-sujeito, entretanto, não estaria tão disponível à nossa curiosidade investigativa: ela é quem decide se mostrar no momento – e para quem – quiser. Haveria aí o nascimento de seus eleitos, em contradição à crença da isonomia de todos os seres humanos. Os eleitos da verdade – como são os shamans – elevar-se-iam à condição de vozes da verdade, e neles teríamos que confiar para acesso ao mundo do verdadeiro. Este conhecimento construído pela crença nos eleitos da verdade e em suas revelações teria formado um mundo insatisfatório e obscurantista, permeado de tabus e preconceitos, no qual vivemos desde sempre, e que o “iluminismo” (em vão, diga-se) tentou debelar.

 

Mas se havia nesse mundo preconceitos e tabus, não podemos dizer que eles não existam no nosso mundo do iluminismo. Além disto, não podemos também dizer que um mundo que desconstruiu a própria noção de viver e também algum sentido para esse viver (ou mesmo a própria importância desta questão!) seja em alguma coisa mais satisfatório para os viventes do que era aquele construído pela verdade-sujeito.

 

No entanto, com toda certeza, há neste período que passamos – modernidade e seu crepúsculo – várias lições que somente este momento poderia trazer. Dentre elas talvez a principal: a isonomia. Mesmo que ilusória, já que apenas fundada em uma negação ideológica e não em afirmação da descoberta.

 

Isonomia, sim, mais ideológica e de discurso que substancial, mas ainda assim, calcada no fato de todos podermos ter acesso à verdade, e agora – proponho – que todo nós somos essencialmente eleitos por ela.

 

Mesmo que a verdade mostra-se-ia quando e para quem quisesse, aposto num fato mais concreto de que todos os que existem são manifestações deste querer revelar-se da verdade. Sendo assim, de fato, somos todos iguais não pela negação ideológica das diferenças, mas pela afirmação conceitual de sermos todos substantivamente revelações voluntárias da verdade.

 

Se a verdade engloba tudo o que existe, o próprio existir é prova suficiente de ter ela, por si, feito manifestar-se a si mesma. Assim, toda pessoa que existe é fruto desta vontade, e portanto, no seu revelar-se, revela a verdade em si.

 

A filosofia de Hegel segue estas premissas e nos conduz ao desafio de fazer desta verdade-sujeito, que está já revelada em si mesma no existir, a verdade-conhecida para nós, e nisso mesmo, também PARA SI mesma revelar-se, já que, sendo nós revelação desta verdade, quando a fazemos conhecida para nós, ao mesmo tempo, a tornamos conhecida para si mesma.

 

 

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Comentários

Nome: oldemar_machado

Comentado em: 03/10/2010 5:46

Isto significa que a verdade e creada e expandida a todo tempo e lugar? E todos as fontes de inteligência são creadoras simultâneas?

Reposta

Sim, que as formas são todas revelação da verdade. E que talvez todas as formas, particulares e em conjunto, são em si fontes criadoras de inteligência. E além disto, que talvez caiba à verdade saber quando e para qual inteligência ela se revela a si mesma.

 

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